Depois de cinco dias intensos de trabalho no Japão, eu tive o luxo de 2 dias e meio de folga em Tóquio. Pesquisei as opções turísticas e, como Tóquio não é exatamente a cidade exótica que eu esperava, segui as dicas de pesquisar opções de passeios para Kyoto.
E daí eu tive a confirmação de que o Japão é um país MUITO caro. Um passeio de 1 dia em Kyoto sem guia e sem comida inclusa sai por US$ 300. Com guia e comida, US$500. Desisti e resolvi ver Tóquio mesmo. Foi bem legal. Na quinta, fui conhecer Ginza, o metro quadrado mais caro do mundo.
Minha motivação para ir lá não era puramente turística. No meio da viagem meu iPod novinho quebrou e Ginza tinha uma Apple Store. 1 hora depois de chegar, sai com um novo aparelho funcionando, graças ao funcionário abençoado que falava inglês :)
Em Ginza fiquei observando as lojas das marcas mais caras do mundo, sofri tentando achar um endereço específico e descobri que em Tóquio nem todas as ruas têm nome. As maiores avenidas têm, mas as menores ruas têm números de acordo com o quarteirão. E cada quarteirão tem números que indicam que ponta dele é o prédio. É muito, mas muiiito difícil de achar um endereço sem entender toda a lógica da cidade e sem ter um mapa detalhado.
De qualquer forma, foi bom ir lá só para tirar da lista. Achei a parte menos interessante de Tóquio.
Eu adoro comer bem. Eu adoro comer coisas exóticas. Eu adoro comida japonesa. MAS…….. eu não como nada que venha do mar. Não é preconceito, já provei peixes, crustáceos e moluscos. Detesto o gosto, o cheiro, a textura. O visual é lindo, mas o gosto é inversamente proporcional. Isso é inevitavelmente um problema no país que deu o sushi ao mundo.
Mas no fim das contas não foi esse o grande problema. O grande problema é que foi difícil achar restaurantes com parte do menu em inglês. Ok, o país é deles e não há obrigação da parte deles em fornecer informações em outros idiomas. Mas os kanjis são indecifráveis para pobres mortais como eu, então foi difícil entender o que me esperava quando eu pedia um prato. Evitei muitos lugares por simplesmente não conseguir nem saber que tipo de comida servia!
Nos dias de trabalho, tinhamos bento boxes para o almoço. Eu nunca tinha visto uma bento antes, é literalmente uma caixa com várias divisórias internas, uma para cada colherada de um prato diferente. E a comida é fria. Olhem alguns exemplos de menu:
Fried Chicken & Sausage
Potato Salad
Deep-Fried Pork
Spring Roll & Meat Ball
Grilled Salmon
Sauteed Burdock Roots & Lotus Roots
Pasta
Seasoned Rice
Green Tea Rice
White Rice
Pickles
Pineapple & Cherry
Isso tudo numa só caixa. É claro que eu comi só o arroz e os legumes, então passei uma leve fome. A tal omelete japonesa é um cubo de ovo batido, só que gelado. Não exatamente uma coisa apetitosa :P
Aliás, é surpreendente como se come pratos com ovo no Japão. Nos vários restaurantes japoneses de São Paulo eu nunca tinha notado as omeletes japonesas, as panquecas com ovo etc. Mas em todos os restaurantes que fui em Tóquio havia a opção de omeletes e ovos batidos de diferentes formas. A maioria inclui uma mistura de carne de porco com peixe ou crustáceos, o que não me apetece em absoluto.
O tempura que acompanhou o udon da birosca em Shinjuku que descobri no almoço da quarta-feira (600 Yen muito bem gastos!)
A carne com arroz e temperos da birosca em Roponggi do jantar de quarta-feira
O sorvete de melão de Asakusa
Alguns dias fraquejei e apelei para comidas ocidentais. A combinação de cansaço, stress, jet lag e frio me deixou morrendo de vontade de comer uma coisa quentinha familiar. Comi massa a la italiana umas 3 vezes no período e valeu muito a pena, especialmente a com abacate e cogumelos que comi num dos cafés do shopping no subsolo da estação de Shinjuku.
Mas confesso que a comida foi o meu maior desafio no Japão. Apesar de ter tido boas experiências, o sabor de quase tudo é extremamente diferente do que temos no ocidente. Mesmo a coca light tem gosto diferente (como é comum de país para país). O chocolate Menji foi surpreendente: quase um Lindt. Também provei várias marcas de chá verde gelado (nham!) e boas tortas. Aliás, comer bons doces é muito fácil. Os japoneses parecem adorar doces, especialmente os do estilo francês. Então é fácil de encontrar e normalmente bem gostoso.
Já os doces tradicionais japoneses não me apeteceram muito. Os sabores mais tradicionais são feijão doce, batata doce e batata doce roxa. Provei todos e não são ruins, mas… não são chocolate, morango, baunilha… Aproveitei para comprar kitkat em versão chá verde (que ainda não provei) e batata doce roxa.
Outra coisa gostosa e onipresente é o chá verde quente, sempre servido à perfeição e sem açúcar. Engraçado descobrir que o chá verde tradicional não é feito a partir da folha, mas sim do pó feito da folha. No último dia em Tóquio, fui ao parque Hama Rikyu participar da tal cerimônia do chá. Na verdade não houve cerimônia, apenas o chá tradicional com o docinho tradicional. Bem mais amargo que o chá verde a que estou acostumada, o chá de lá tinha espuminha! E o doce era bem mais doce que a média de sobremesas japonesas, então o contraste era enorme. Foi curioso, mas deslumbrante por causa da vista do parque. Fotos em breve!
De domingo a quarta-feira, passei meus dias trabalhando em Tóquio. Foi super cansativo, mas também interessante porque participei ativamente da vida da cidade. Trabalhei num prédio comercial literalmente ao lado do hotel, que fica na parte de negócios de Shinjuku. Centenas de japoneses de ternos escuros eram meus companheiros de corredor pela manhã, no almoço e a noite. Várias vezes os surpreendi me observando com curiosidade, dada a raridade de ocidentais naquela área (e em Tóquio em geral).
A proporção de mulheres na força de trabalho ali também era bem pequena, como na Índia. Mas a sensação de exclusão no Japão foi diferente da que senti na Índia. Me senti como uma curiosidade no Japão, várias vezes surpreendi japoneses e japonesas me observando. Sempre que vi isso, eles rapidamente desviavam o olhar, então era engraçado e não opressor.
Ali em Shinjuku me senti como em qualquer centro de negócios do mundo ocidental: todo mundo de terno e gravata, oceanos de pessoas de cabelos escuros e ternos escuros. As mulheres também de terninho, sempre elgantíssimas. Na hora do almoço, nossa refeição foi preparada pela equipe do evento, da mesma forma que em Mumbai. No entanto, a questão da comida em Tóquio foi sofrida para mim. As bento box (caixas de almoço) não foram feitas para o meu gosto. Mais sobre a comida no Japão no próximo post.
Uma das melhores coisas de trabalhar em Tóquio foi ter um escritório no 47º andar do Sumitomo Building. A vista lá de cima era deslumbrante mesmo nos dias de chuva. Vi a cidade toda, com as montanhas ao fundo. Nos dias mais claros também era possível ver o Monte Fuji.
A conexão de internet lá também vale uma menção. Eu que estou acostumada a sofrer com os 2MB do Speedy quase chorei de emoção com a facilidade que era uploadear fotos, vídeos, ver o ocasional vídeo no YouTube etc. Para fazer download do material de trabalho chegava a ser bonito de tão rápido. Ah, o primeiro mundo :P
Chegar em Tóquio foi uma experiência reconfortante. O aeroporto, as ruas, o ponto de ônibus… tudo me lembrava alguma cidade que já visitei. Tudo de altíssimo nível, portanto fácil de navegar. No aeroporto faz-se quase tudo sozinho, exceto comprar comida. A atendente da lojinha de conveniência não fala inglês, as embalagens são todas em kanji, não dá nem para saber muito bem o que é doce e o que é salgado. Ainda bem que algumas marcas ocidentais chegaram aos Japão, então passei as duas horas no ônibus de Narita para o hotel em Tóquio comendo M&Ms e dormindo.
Mais uma mudança de fuso horário não foi a coisa mais saudável para o meu corpo, portanto foi uma alegria infinita ver o hotel confortável se aproximando e saber que eu teria cerca de 5 horas livres antes de começar a trabalhar (7 da noite de sábado!).
Chegando no confortável quarto, liguei para o meu melhor contato em Tóquio: uma brasileira conhecida pela internet. Aqui é preciso fazer um parênteses para louvar a felicidade que é poder chegar no Japão e ter uma pessoa conhecida que fala português para me levar para almoçar. Todas as horas passadas respondendo emails da poplist foram novamente recompensadas: além da diversão que é participar de uma comunidade online, tem ainda a vantagem de ter conhecidos espalhados pelo mundo prontos para me levar para passear.
A Lisa teve a caridade de ir me buscar no hotel, pois eu tava um tanto retardada de fome e cansaço. Andamos um pouco no bairro onde me hospedei (Shinjuku) até entrarmos numa lojinha clichê-japonês: um restaurante de ramen. Primeiro choque cultural forte: o menu era absolutamente todo em kanji. Felizmente a lisa entende alguma coisa de japonês e conseguiu me guiar a té um prato sem peixes, crustáceos etc. Segundo choque: você escolhe o prato e paga numa máquina na entrada. Depois, pega a ficha e leva até o garçon, que agiliza seu pedido e o traz até você. Terceiro choque cultural: a bebida era água. E só.
Naquele momento nada poderia ter sido mais delicioso do que uma tijela de sopa-macarrão quentinha. Veio acompanhado de um bife suino de aparência extremamente duvidosa, mas muito saboroso. Depois do ramen, eu me sentia mais animada e disposta a andar. Então Lisa me levou para enfrentar a estação de trem de Shinjuku. Não sei se é a maior estação de Tóquio, mas certamente é a maior pela qual eu passei (e eu rodei bastante).Shinjuku dá a sensação de que o mundo ferroviário inteiro passa por ali. É impressionante e assustador, dezenas de linhas e milhares de pessoas. Quase tudo é automatizado, como nos maiores metrôs do mundo, mas a escala é diferente. E tem o detalhe de que a lingua predominante é completamente irreconhecível. O grande mérito do sistema de transporte de Tóquio é ter absolutamente todas as informações e direções com “legenda” em inglês embaixo. Se não fosse isso, seria uma tarefa hercúlea navegar pela cidade.
Pegamos a Yamanote line até Shibuya, um bairro conhecido pelos altos prédios cheios de neon e as hordas de jovens nas ruas. Foi legal ver logo aquele lugar que parecia saído dos filmes e fotos sobre o Japão. Muitos jovens e adolescentes, milhares! E as meninas todas vestidas como bonecas. Algumas de colegial, outras simplesmente reunindo o máximo de fofura e perfeição possível numa aparência feminina.
Uma coisa que me chamou atenção é que em geral os japoneses não são baixinhos como eu imaginava. As mulheres são sem dúvida muito menores do que eu, mas os rapazes muitas vezes são mais altos. A maioria das pessoas, independente da idade, é extremamente magra. Raramente se vê uma barriga ou pneuzinho (“love handles”), eles são esguios e magros. A maioria das mulheres sem curvas: nada de seios, bundas ou quadris arredondados. Pernas finas para todos os lados. E que peles lisas e maravilhosas, mesmo nas pessoas mais velhas!
Fiquei admirando as pessoas e as luzes em Shibuya, andando pelos arredores da estação. Numa das ruelas de lá, paramos para comer uma sobremesa: em crepe em formato de peixe. Eu comi de chocolate com recheio de baunilha quente, mas o tradicional é de baunilha com recheio de doce de feijão. Provei, mas é muito estranho comer uma pasta de feijão com gosto de feijão, só que doce. Então preferi os sabores ocidentais :)
Depois, exausta, voltei para o hotel sob a tutela da incansável Lisa. Ela me deixou sã e salva no lobby, fazendo a boa ação do mês. Felizmente esse hotel oferecia internet grátis no quarto, então pude me comunicar com o Brasil antes de começar os trabalhos, que foram até as 9 e meia da noite de sábado. Pensei em sair novamente, mas era fisicamente impossível, especialmente porque o domingo seria um dia inteiro de trabalho.
Uma das coisas mais difíceis desses dias na Ásia, repito, é a incapacidade de dormir na hora em que se deve dormir. Apesar do cansaço, não consegui dormir a noite inteira. E por isso o restante da semana foi de cansaço acumulado, chegando a atrair uma pequena gripe. É chato, mas imagino que também é falta de hábito meu de fazer mudanças tão radicais de fuso horário.
Curiosidades do Japão percebidas logo de cara:
As pessoas realmente andam na rua com máscaras cirúrgicas. Muitas pessoas! De todas as idades!
É difícil mesmo achar alguém capaz de falar inglês. Quando há alguém, a pessoa normalmente não passa dos rudimentos da lingua.
O Japão é realmente o país da fofura. Até algumas placas nas estradas têm desenhos fofinhos!
Tóquio é uma cidade visualmente agressiva. Há placas, propagandas, neons e sons por todos os lados. Dentro das lojas, quase todas as filas de prateleiras de produtos têm uma TV ou aparelho de som ligado numa propaganda diferente. Isso significa que, onde há barulho e movimento, esse barulho é constante e desencontrado.
Tóquio poderia ser qualquer cidade de um país rico do hemisfério norte. É tudo muito limpo e organizado. MUITO. Se não fosse a lingua, seria difícil dizer a primeira vista que é Japão.
Os japoneses realmente se curvam uns para os outros. Contive o impulso de dar risadinhas mal educadas, mas é o tipo de clichê que eu não esperava que fosse verdade, apesar de já ter visto e lido em mil lugares.
Todo mundo em Tóquio anda com o celular na mão, mas não se ouve nenhum celular tocar. È considerado falta de educação então todos usam o celular no silencioso.
Os modelos de celular japoneses são completamente diferentes dos ocidentais. Os únicos modelos que vi conhecidos foram o iPhone e o Blackberry.
Todo mundo é elegantíssimo em Tóquio. Bom gosto na hora de se vestir e maquiar parece ser a norma, apesar de alguns extremos desnecessários.
A cidade parece exalar riqueza por todos os lados, mas não há um clima de ostentação. É só tudo muito limpo, organizado e de boa qualidade.
Tá vendo essa cadeira aí? Foi assim que começou a minha ida para o Japão, na JAL Premium Economy.
Cansada como eu estava, foi emocionante ver meu assento ser essa maravilha (em comparação com os assentos normais da classe econômica!
Mas o assento especial foi a única diferença que vi no voo, já que a comida era intragável (para o meu gosto): as opções era peixe ou muita muita muita pimenta. Nem liguei a TVzinha porque dormi nos primeiros 15 minutos e tentei me manter dormindo o máximo de tempo possível. Perdi o café da manhã, o que significou chegar em Tóquio com *muita* fome.
Mas o voo foi excelente e tudo dentro do avião já era em japonês, então começou a readaptação!
Com um começo tão saboroso, o último dia na Índia prometia ser excelente. E realmente foi. Depois de reuniões de trabalho durante toda a manhã, me levaram para um almoço chinês simples (mas delicioso! bifum, nham!). De lá, partimos para um dos bazares de Delhi. E lá começou a diversão consumista.
O cenário é exatamente o mesmo de uma feira hippie brasileira: barraquinhas simples montadas ao ar livre. Mas o conteúdo é extremamente diferente. Começou pela coleção absurda de xales, dupattas e echarpes de seda, cada uma mais bonita que a outra com bordados e decorações sensacionais. Todas as cores do arco íris, para todos os gostos. É claro que eu sempre gostava mais dos saris, mas realmente não havia espaço nem condição de carregar um àquela altura do campeonato, então tentei não ficar choramingando.
Comprei um ganesha, algumas estátuas de elefantinhos (nhom), brincos de prata e os maravilhosos bonecos do Rajastão! Eram ridiculamente baratos, mas também bem grandes. Tive que me contentar com um casal, apesar da tentação de levar vários de presente.
Foram compras bem felizes e, no final, ganhei um par de brincos lindos da equipe indiana. Fiquei super emocionada, foi bem legal. Sai do bazar direto para o aeroporto, pois tudo é longe em Delhi e meu voo era às 20hs. Foi uma jornada feliz, observando o restinho de Índia e pensando nostalgicamente em todas as coisas e pessoas legais que conheci. Desci do carro bem emocionada e com sentimentos ótimos em relação à Índia… que duraram até a porta do aeroporto.
Ao contrário de aeroportos ocidentais, a verificação de segurança começa *antes* de você passar da primeira porta. Isso significa que você, com suas malas, bolsas, documentos, tudo pendurado, precisa parar e mostrar absolutamente tudo para os guardinhas da porta. E eles me olharam como se eu fosse a louca terrorista do mal porque minha reserva de viagem estava em português. Tipo da atitude desnecessária, mas ok.
No checkin da JAL já começou a adaptação cultural: 90% dos passageiros eram japoneses que mal falavam inglês com os indianos. Depois de mais duas verificações de segurança, entrei no simples terminal internacional do Indira Gandhi Internacional. A lojinha do Duty Free era desapontante, pois não aceitava rúpias de estrangeiros (o motivo me parece irracional). E eu não podia mais sair da sala de embarque para trocá-las então agora tenho milhares de rúpias e não sei o que fazer com elas. Enfim, apesar da chateação se segurança do aeroporto, a despedida da Índia me deixou com gosto de quero mais.
Coisas que não vi na Índia:
Saias e calças acima do tornozelo, bermudas, shorts
Pessoas com fone de ouvido na rua
Tênis
Elefantes
Faquires
Crianças sozinhas na rua
Coisas que vi pouco na Índia:
Calças jeans
Gente vendendo coisas no sinal
Mendigos (só dois!)
Vou sentir falta do típico movimento de cabeça dos indianos (que eles me disseram que significa “sim”):
Resolvi começar o relato do último dia na Índia pela coisa mais inesperada que lá aconteceu. Eu comi o melhor bacon da minha vida. Assim, disparadamente o melhor bacon da minha vida.
Era perfeito. Macio e crocante ao mesmo tempo. Sem pingar gordura.
Quase chorei de emoção de tão bom que era. Aliás, todo o café da manhã do sensacional hotel era absurdamente bom. O croissant em particular entrou no meu top5 melhores croissants que já comi, chegando bem perto dos parisienses perfeitos. Ainda bem que só fiquei lá um dia, senão eu ia morrer comendo o café da manhã.
Infelizmente, desci para o café sem nenhuma máquina fotográfica. Eu simplesmente não esperava o desbunde que foi. Mas sai de lá com memórias que vão durar para sempre. <3